Ficção: Os potros (Fiction: The horses)

A água rápida dos recantos toca os cascos. Os raios brilham, as nuvens secas ganham a cor da noite. O horizonte é uma cruz distante. No fim do dia o começo. As peles e os pelos se confundem na umidade dos cheiros, na  aspereza das mãos, no corte trançado das rédeas. Dentro do dentro uma outra noite. A memória ainda é tênue. O destino é um velho signo cujo código se perde no laço da própria sorte. Antes, muito antes, quando a tarde ainda era um pedaço, os velhos queimaram o fumo. Depois, pouco depois, quando a luz cinza listrou os campos, as unhas da terra se entranharam pelos atalhos. A planície sem fim assombrava suas histórias. Os potros, vultos velozes, chegam ao verde, sentem a dor da lida e o sangue dos movimentos. Retornam vivos, a doma é passado. A marca dos estilhaços é o que resta na memória. Saem de dentro da ausência, correm para a margem desse rio. Chegam nas entranhas das lembranças, se livram de todos os arreios. A liberdade é mais que uma poça d´água onde os cascos escondem as feridas de suas andanças de um tempo que hoje é apenas um braço de terra seca.

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The fast water from the nooks touches the hooves. The rays shine, the dry clouds gain the color of the night. The horizon is a distant cross. At the end of the day the beginning. The skins and hairs mingle in the moisture of the smells, the roughness of the hands, the braided cut of the reins. Inside the inside another night. The memory is still tenuous. Destiny is an old sign whose code is lost in the bond of fate itself. Earlier, much earlier, when the afternoon was still a piece, the old men burned the smoke. Then, shortly afterwards, when the gray light scattered the fields, the nails of the earth clung to the shortcuts. The endless plain haunted their stories. The colts, swift figures, reach the green, feel the pain of the hand and the blood of the movements. They return alive, the dressage is passed. The shrapnel mark is what’s left in the memory. Out of the absence, they run to the bank of that river. They get into the guts of memories, they get rid of all the harnesses. Freedom is more than a pool of water where hoofs hide the wounds of their wanderings of a time that today is only an arm of dry land.

Foto e texto: Chronosfer.

6 comentários em “Ficção: Os potros (Fiction: The horses)

    1. E eu gostei que você tenha gostado. este é um dos dois ou três textos que fiz sobre o nosso sul do país e parte do Uruguai/Argentina e a pampa. a foto ficou deslocada pois as que tenho do campo não encontrei (acontece). vou republicar comentários e textos que estão no Chronos 1 e nunca tiveram acesso nenhum. muito obrigado, Cris pela força e seguimos. um grande abraço e e feliz fim de semana.

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