Ficção: Viver cada dia (Live every day)

Os vestígios do cansaço desapareceram, quando o horizonte abriu e a chuva chegou para o lados do anoitecer onde a lua ilumina as nascentes da minha palavra. ( sei, as palavras valem muito pouco nesse setembro salinizado pelas âncoras dos verbos ) e o sol nas entranhas, como labaredas nesta terra avermelhada de casas destelhadas na paisagem coagulada pela esperança idosa e branda de um inverno que transpira o suor dos lábios cerrados, dos leitos dos rios e dos mares, guarda seus raios em nervos sanguíneos, que cabem na palma de mão, formando anéis nos dedos envelhecidos pela colheita dos que não bebem uma gota de água no seu tempo. ( Os parreirais choram seus frutos desaguados. )

Se o tempo existisse entre as paredes que protegem o sul dos ventos que vêm do norte, secos e frios, úmidos e escuros como o inverno com seus córregos, seus lumes em pequenos fachos e seus gravetos e lascas de lenha, com suas chamas e cinzas estalando e acendendo o fogo de nossas almas rubras, clandestinas, que se inventam e rejuvenescem pelas correntezas ardentes, correspondem-se, mas não ousam o toque, o sinal para a vida, para a árvore em bronze, que alça se voo, que se despede ( lá fora a chuva é um quadro acinzentado, emoldurado pelos pinheiros, pela noite, pelas estrelas, com seu brilho escondido, pela calma de um beijo sem cicatriz. )

E as vozes, algumas delas do passado, outras do futuro, nos procuram no presente, enlaçadas no metal quente, quebram os silêncios e os medos, apontam as ferrugens e as fragilidades e juntas sopram seus veios de pequenas coisas pelas janelas, pelas portas, numa conjunção de nuvens e espelhos.

E então, descobrimos que nascemos distantes um do outro, descobrimos que sabemos intuir o tempo um no outro, e assim vamos renascendo no tempo dos tempos, por vezes impenetráveis, nunca tarde, e o meu olhar não é o olhar para trás nem para frente, é o olhar de estar neste tempo ao mesmo tempo sem saudade da lágrima derramada nos vidros de outros tempos.

Também sei, o meu fim é o começo de tudo e o meu consolo é o próprio tempo porque me segura, não me deixa parar, gritar e morrer antes do amanhecer, quando a terra abre, vulcânica, outras terras, ensolaradas, solteiras, que repousam no alimento das raízes protegidas do sereno que a noite não expulsa deste chão de infinitos atalhos, que surgem pelas fendas das estações despidas de suas asas e auréolas.

Mas o que nos une é a folha que cumpre o seu destino de escorregar no limo das pedras úmidas, de voar pelas calçadas e pelas gramas e ao cair gera o que sentimos através dos olhos das luz, que é filha da partida e dos braços ásperos e rudes da coragem, que não esmorece nas sombras deste noite febril de setembro, quando no fundo dos rios e dos mares das madrugadas sem fim, nossos abismos são esquecidos pela fome e pela sede do mesmo olhar, do mesmo amor, que sabem ser ávidos no amanhã comum, que por vez mergulha no fluxo irresistível da vida.

Foto: Chronosfer.

This text was written the day before the surgery I had in January 2019 to remove bowel cancer. Because it’s long, I didn’t do the translations. I apologize, it would be a very long and tiring post. So if you want to read, please go to Google Translate. Thank you so much.

Este texto fue escrito el día antes de la cirugía que tuve en enero de 2019 para extirpar el cáncer de intestino. Porque es largo, no hice las traducciones. Me disculpo, sería un post muy largo y agotador. Así que si quieres leer, por favor ve a Google Translate. Muchas gracias.

38 comentários em “Ficção: Viver cada dia (Live every day)

  1. Certamente que antes de uma cirurgia desse tipo, fluem na mente inúmeros pensamentos, relações e emoções. E olhares, muitos olhares sobre o sentir e para o tempo passado, presente e de esperança futura.
    Por tudo isso, este é um texto especial. Obrigada Fernando por o partilhar connosco.

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    1. Hi, Ingrid. The surgery was successful, I’m fine, and I’ve been doing control tests every six months and for now they’re ok. it’s a daily battle for cancer not to come back and the strength I get from people like you has been very important. so talking about the life experience I’m going through is my way of trying to help people. I hope you can. the photo, of an end of day, can be as encouraging as dawn. there is a lot of meaning in them and I really like to think that they strengthen us to live these moments. thank you so much! 🎶✨😊💖

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  2. Texto fabuloso e ainda bem que tudo está passando. Para quem passou por uma situação dessa, cada dia é para ser comemorado… com a chuva, o sol, a lua, a folha… as flores. O silêncio, a música!
    Tudo vai passar! Abraço carinhoso

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    1. dialogar com a gente mesmo tem um efeito às vezes catalizador de tantas coisas. para mim, foi de reencontro e reconstrução interior. quero ajudar as pessoas de alguma forma e penso que contando o que estou vivendo possa ser uma delas. assim espero. muito obrigado, Mariana, e vamos em frente. um abraço carinhoso.

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    1. pois então, Estevam. a frase está dentro de um contexto muito complexo da minha vida, e também tem muito da minha infância – tínhamos uma parreira em nosso quintal – e tudo isso veio como uma vertigem em minha lembrança naquele momento. foi bom ter recordado, talvez uma das razões para ainda estar aqui, podendo contar a história. abraço, meu querido amigo.

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  3. Deseo

    Había una vez un deseo sin ser solicitado y en el cual todos querían ser partícipes. No existía la luz y la sombra era tenue pero infinita, entonces, aparecieron sus manos hacedoras y la creación fue un chorro incesante de calor y nubes, de colores y sueños.

    La luz tomó forma redonda y nos despertó a la vida, en un parpadear éramos reyes del fuego y el viento nos llevó a conocer el mar, sin darnos cuenta hacíamos día a día una acuarela de pulsión con el sol protagonista en cada acto, con las sombras para el descanso.

    Hasta que un día la fotografía y el alma de nuestro anfitrión perpetuó la posibilidad de mirar al cielo todas las veces necesarias para sentir cerca del corazón el ojo más allá de la imagen, más allá de la espera, más allá de la estética y regalarnos un pedacito de la creación del Todopoderoso.

    Gracias Fernando y vive cada día

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  4. Se o tempo não existisse entre as paredes do tempo, se o tempo não fosse uma tesoura, às vezes dolorosa, não poderíamos medir a duração de um beijo, de um adeus, de uma carícia. O tempo não nos machuca. Seu fim nos machuca. Nele, na ampulheta do tempo, somos pelo menos uma porção de areia. Estamos vivos, assim como o tempo. Vivo Um abraço grande

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    1. Oi….desculpe tanto atraso. Aos poucos volto a ter condição física melhor – distensão muscular no abdômen com reincidência. Estou bem, logo voltarei. Muito feliz em te encontrar e te conhecer. Um abraço carinhoso e imenso, beijo e cuide-se muito, por favor.❤️💐

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